'Ame o Tucunduba' desenvolve atividades em prol da sustentabilidade e da ressinificação das margens do rio, onde obras de macrodrenagem se arrastam há três décadas.
Projeto percorre bairros da periferia de Belém alertando sobre cuidados com rio na cidade e saneamento Ame o Tucunduba/Divulgação Em Belém, cidade que possui o 5º pior serviço de saneamento do país, segundo estudo do Instituto Trata Brasil, divulgado nesta terça-feira (22), sete mulheres resolveram criar uma associação da sociedade civil para pensar os problemas da cidade a partir do olhar para as águas.
O projeto surgiu a partir do incômodo sobre como moradores enxergam de forma negativa o rio, e não como parte da solução para a falta de acesso aos direitos, como o saneamento, segundo a publicitária Mariana Guimarães, do projeto 'Ame o Tucunduba'.
Há anos, a falta de saneamento é uma reclamação constante de moradores da capital paraense.
"Acho que uma coisa que a gente sempre gosta de pontuar é que o saneamento, antes de tudo, é um direito humano, tanto em nível internacional com a Organização das Nações Unidas e vários acordos, mas também a nível nacional, direito garantido pela Constituição.
Por isso, não se pode negá-lo, em hipótese alguma, à população", diz.
A associação atua em duas frentes principais: a formativa, com oficinas, formações de multiplicadores; e também com a mobilização social, ajudando a construir campanhas, segundo Mariana, sempre focando na questão ambiental, com recorte de gênero, raça e de região.
Oficina na margem de rio em Belém sobre saneamento Ame o Tucunduba/Divulgação Expedições com estudantes e moradores pelas margens do rio Tucunduba estão entre as ações, que já foram reconhecidas e premiadas pela Embaixada da União Europeia no Brasil, em 2019 e 2020.
Há ainda, além das oficinas e expedições, intervenções urbanas e programações culturais.
A atividade lança olhar para a bacia hidrográfica, que atravessa cinco bairros de Belém, e onde uma obra de macrodrenagem se arrasta por três décadas e que está em processo de finalização, segundo a Secretaria de Estado de Desenvolvimento Urbano e Obras Públicas (Sedop).
Leia mais: Ranking do saneamento básico: veja quais são as grandes cidades com os melhores e os piores serviços do país A capital do Pará, além de Ananindeua, na região metropolitana, e Santarém, na região oeste do Pará, estão entre as 20 cidades com os piores índices do Brasil no quesito saneamento, segundo estudo feito para celebrar o Dia Mundial da Água.
O documento utiliza os dados mais recentes do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), referentes ao ano de 2020.
Oficinas e excursões por rio em Belém Ame Tucunduba/Divulgação 'Falta de transparência do poder público', diz diretora de projeto Para quem atua diretamente com a questão do saneamento, a situação em Belém é agravada pela precariedade da coleta e tratamento de esgoto, que afeta principalmente a periferia; a falta constante de água, distribuída pela Companhia de Saneamento do Pará (Cosanpa); a falta de destinação adequada para os resíduos sólidos; e ainda a questão dos alagamentos.
"Temos um problema muito grave de falta de transparência do poder público, em todos os níveis, sobre o que acontece na cidade, por isso é necessário articulação entre movimentos sociais, pesquisadores e a comunidade para cobrar mudanças efetivas, apontando a uma direção diferente do que já se construiu em Belém a partir de uma lógica moderna e colonial que tenta apagar os rios e a cultura ribeirinha", explica Mariana Guimarães, uma das diretoras da Ame o Tucunduba.
O g1 procurou a prefeitura de Belém, de Ananindeua e também a Cosanpa, responsável pela água e esgoto no estado, para tentar explicar os desafios e as metas a serem cumpridas sobre a questão do saneamento.
A Cosanpa informou apenas que os dados do Instituto Trata Brasil "não refletem ações iniciadas pela atual gestão do governo estadual" e que "a partir de 2019, a Cosanpa retomou 13 projetos parados e iniciou novas obras nos municípios paraenses, incluindo Belém, Ananindeua e Santarém".
O investimento segundo a Cosanpa é de R$ 1 bilhão.
A Secretaria Municipal de Saneamento de Belém (Sesan) não respondeu aos questionamentos, informando apenas que "a responsabilidade pelo abastecimento de água e a coleta de esgoto é da Cosanpa".
Já a Secretaria de Saneamento e Infraestrutura de Ananindeua disse que "sobre os serviços que competem ao município, a Sesan garantiu, em 1 ano e 3 meses de atual gestão, investimentos na ordem de R$ 200 milhões para a execução de obras estruturantes que correspondem à macrodrenagem de quatro canais e ainda, obras de saneamento que devem sanar a carência de rede de água e esgoto em duas grandes áreas que ficam nos bairros de Águas Lindas (atendendo 32 ruas) e Curuçambá ( 30 ruas)".
A secretaria, no entanto, não informou prazos para conclusão.
Estudante e moradores e oficinas por rio de Belém Ame Tucunduba/Divulgação Rios como solução Guimarães lembra que, no índice do Instituto Trata Brasil, cidades da região amazônica figuram entre as piores colocações - todas as seis últimas colocadas são da região Norte.
Em ponto comum, essas cidades tem a proximidade aos rios como um dos fatores socioambientais.
"Sempre se reparar no ranking nacional, as cidades mais prejudicadas são da região amazônica.
A gente sabe que isso vem de um descaso que tem a ver com a forma que se foram estruturadas essas cidades e o processo de urbanização.
São vários problemas que demorariam muito tempo para serem resolvidos de forma mais eficaz".
Explorando (e ressignificando) o Tucunduba A publicitária Mariana conheceu o projeto Ame o Tucunduba em 2017 durante o trabalho de conclusão de curso em Comunicação Social, na Universidade Federal do Pará (UFPA), a partir de uma campanha do "Expedição Tucunduba".
"Quis botar em prática todas as técnicas e conhecidos em um projeto que trabalhasse com a questão das cidades, então conheci as meninas, me aproximei, fui começando a me integrar, até que hoje em dia sou uma das diretoras".
Segundo ela, as atividades envolvem oferecer acesso à informação e atividades para ajudar a população a repensar as margens do rio.
"Fiquei muito encantada com o projeto de maneira geral, queria muito botar a serviço da comunidade esses conhecimentos que a gente aprende, principalmente vindo de uma universidade pública, e aí fui me envolvendo com todos os projetos desenvolvidos pela associação, como as ocupações nas margens de rio, que levou o nome de ''Faça Você Mesmo'.
Nele, era construído uma horta, com banner comunitário, onde as pessoas iam levando mudas, ajudavam a cuidar, também havia atividades culturais - tudo para ajudar a ressignificar essa margem do rio Tucunduba".
Atualmente, a expedição sobre o rio Tucunduba começou a ser replicada em outras cidades atravessadas por rios.
Associação de mulheres integra projeto Ame Tucunduba em prol do saneamento em Belém Elias Costa/Divulgação Para tentar levar ao poder público os problemas e sugestões de soluções, a associação também integra duas instâncias participativas que pensam as problemáticas de Belém: na Câmara Técnica de Equidade, Igualdade de Gênero e Mudanças Climáticas, do Fórum Paraense de Mudanças Climáticas; e no programa 'Tá Selado', de política de participação municipal da prefeitura municipal.
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Publicada por: RBSYS
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